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Avó Cool

Avó Cool

O segredo do Caminho

Foi há um ano que deixei Valença com uma carga emocional mais pesada do que a mochila. Ao longo dos 120 km que tinha pela frente, queria fazer uma profunda reflexão sobre a vida e encontrar as setas luminosas que indicar-me-iam por onde ir depois e se possível o lugar de Deus. Já não tinha trabalho, passara os dois últimos meses entre dois hospitais com familiares muito amados, estava a fechar uma casa cheia do passado dos meus mortos e acabara de saber que ia ser avó. Oscilava entre um véu denso de histórias e o nascer de um sol que chegando ao mundo pediria mais de mim, muito mais de mim, e eu já queria ser para esse bebé mais do que era então. Ia carregada de pensamentos, mas o que fez o Caminho? Mandou-os passear e tornou-me parte dele.

Era este o segredo que me reservava o Caminho: o poder de silenciar a mente babilónica e de modo imediato. Logo à primeira etapa, situou-me no “aqui e agora”, fez-me inteira no lugar e no tempo que experienciava, oferecendo-me uma espiritualidade tangível, mostrando a sacralidade do instante.

Mal me aliviei dos pensamentos, senti o peso da mochila, mas mesmo essa foi-se tornando parte do meu corpo porque o Caminho é um processo de alívio, uma atenção plena que não se pede – acontece. Um peregrino está inteiro no que vê, cheira ou pisa; todo ele é a paisagem que se transforma ao ritmo dos seus passos; é a chuva e o sol, o calor e o frio, os bosques e as veredas, as vilas e cidades, as pessoas com quem se cruza e sobretudo a cumplicidade com os outros peregrinos, gente numa mesma demanda que perde a urgência. Há um destino, um objetivo, mas antes e acima dele está a vivência do momento, a contemplação e o serendipismo, a alegria e a capacidade de superação.

Cinco dias depois, lá estava a catedral, mas o Caminho tinha sido o altar.

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