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Avó Cool

Avó Cool

O mais doce caos

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Este texto foi escrito aos pedacinhos, roubando migalhas de tempo aqui e além. Entrei em modo avó e a minha vida mudou por inteiro. As rotinas estão viradas do avesso e a casa num desalinho, mas o caos nunca foi tão doce.

Desde o início sabíamos (e atrevo-me a falar em “nós”, apesar da decisão ser dos pais) o que não queríamos: colocar o bebé num infantário. Tem pouco mais de seis meses e merece o que eu dei aos meus filhos, o que os meus pais me deram: o mimo e o cuidado dos avós. É um privilégio, bem sei, mas se o é para ele, mais ainda é para mim.

Assumir o papel de avó aos 50 é exigente; é uma escolha com várias cedências que não se compadece com os ritmos de trabalho, as solicitações sociais e os modos de vida atuais. A atividade profissional passa para segundo plano, o que não significa ser negligenciada – cumpre-se nos horários possíveis, entre os fins de semana e as noites, os dias em que a outra avó entra de “serviço” ou os sonos do menino. As saídas para um passeio ao ar livre passam a depender do bom tempo (que tem faltado), empurrando o carrinho do bebé. Há que fazer e dar sopas especiais, esterilizar biberões e mudar fraldas repetidamente. As costas doem ao final da tarde porque o colo é um direito consagrado. O desarruma-arruma, lava-e-suja, suja-e-lava, o adiamento dos cuidados pessoais e o fim da ordem quieta das coisas, daquela organização upa-upa-que-isto-está-um-brinco, fazem parte da nova realidade. E está tudo bem. Amo este bebé.

Junte-se agora ao neto o filho regressado para passar o Natal. São guitarras, baixos, amplificadores e computadores nos lugares mais incertos, sempre os menos oportunos. É a retoma da rotina de almoços e jantares, a velocidade com que o frigorífico se esvazia (outra ida ao supermercado), mais roupa para lavar e que não seca, mais trabalho, enfim. E está tudo bem. Amo este miúdo.

Se acontece a filha, mãe do neto, também almoçar, o que se tornou comum porque ainda dá de mamar e porque as saudades do filho são sempre muitas, eis-me então com mais um ingrediente no caldinho precioso de tarefas de dona de casa. E mais uma vez está tudo bem. Amo esta miúda.

Com este caos doce instalado, descubro-me como uma espécie de supermulher. Cumpro os desafios e acabo por perceber que o tempo, não sendo elástico, afinal dá para muito mais. O cabelo precisa de ser pintado, a depilação é sucessivamente adiada, a roupa que uso já viu melhores dias, mas que se aguente, e o ginásio, com sorte, será em 2020, no entanto o amor por mim revela-se de outras formas: retomei as leituras na cama antes de adormecer, acendo a lareira e bebo um copo de vinho tinto, tchim-tchim à vida, espanto-me com a ausência daqueles pensamentos negativos que sempre gostaram de me assaltar e cuido da família, das amizades, dos meus.

Uma menção ainda para o Natal – o stress dos presentes, a parte chata, e a dedicação (com competência, caramba!) que coloco agora na preparação da ceia de 24 e da festa de 25.

Aos poucos, percebo que me estou a preparar para ser a matriarca, papel que deixo por agora, e espero que por muito tempo, à minha mãe. Estou mais sábia, mas mais menina aqui dentro, onde bate o coração.

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