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Avó Cool

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Água de São João

Celebrar a renovação dos ciclos da Natureza é um processo de integração e cura. Para quem não conhece, a água de São João é um ritual ancestral, pouco documentado e divulgado, sofisticadamente simples, que se faz em casa.

Passada de geração em geração pelas mulheres do meu lado paterno, esta é uma das mais extraordinárias cerimónias do Solstício de Verão pelo modo como estabelece a união à Terra e à nossa essência. O resultado é uma experiência tão sensual quanto transcendental, cheia de beleza e contemplação, com um profundo sentido do momento e do lugar, em sintonia com o Todo.

E é, de facto, muito simples. Cuide de reunir um ramo de plantas aromáticas frescas, como alfazema, hortelã, alecrim ou limonete (são apenas exemplos, o importante é escolher perfumes que nos agradam). A minha família sempre fez a água na véspera do São João, pelo que misturamos também o manjerico. Junte também um ramo de flores com cheiro. Podendo, colho flores silvestres, que misturo com cravos ou rosas (as de Santa Teresinha são excelentes pela intensidade do aroma).

Pelo lusco-fusco, enche-se de água uma taça ou bacia, se possível ao ar livre. Sobre a água deixam-se cair suavemente as flores, pétala a pétala, as folhas e os caules tenros das plantas escolhidas. É um ritual sem pressa, nascido quando por cá ainda não se conhecia o termo mindfulness, no entanto tudo nele apela a uma vivência do aqui e agora, de reconexão com a energia universal. Faz-se por isso devagar, explorando o aroma e a textura de cada planta, o seu peso e forma, a sua absoluta singularidade.

Mexe-se ligeiramente a água com as mãos, tendo cuidado para não massacrar as pétalas e folhas. Se desejar abraçar uma dimensão mais espiritual, formule uma intenção enquanto faz os suaves movimentos.

Deixe ficar a bacia ao relento durante a noite. Na manhã seguinte, preferencialmente cedo (se conseguir experimente ao nascer do Sol, quando todos à volta ainda dormem), refresque-se com esta água. Mergulhe as mãos e se possível os braços na mistura perfumada, percebendo as mudanças nos pedacinhos das várias plantas. Esfregue-os com brandura pelo rosto, pelo pescoço, se puder pelo corpo inteiro. Sinta o prazer dos elementos, a felicidade dos sentidos, o arrepio na pele. Renove a sua intenção. Viva o momento; admita a sensualidade, liberte-se, rutile com luz própria.

Enquanto a água de São João mantiver a sua frescura, repita as abluções as vezes que desejar. Porque é disso que se trata – uma purificação, o retorno à Natureza.

Admito que este ritual cative mais as mulheres, pela experiência do Sagrado Feminino que encerra, mas é profundamente prazeroso também para os homens. Abrir espaço ao preconceito ou à exclusão é sujar a água, é sujar tudo…

Só duas notas finais: primeiro, fuja à tentação de juntar à água essências ou perfumes processados (deixe a química dos elementos naturais funcionar como nos primórdios); segundo, o ritual é uma experiência pessoal (eu prefiro fazer sozinha),  mas pode ser vivenciado em boa companhia. Nesse caso, escolha uma ou mais pessoas de sua inteira confiança, que respeitem o seu ritmo, os seus silêncios e as suas formas de expressão.

ramo_água_são_joão.jpg

 

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