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Avó Cool

Avó Cool

A vida sobre a morte

Não será dos temas mais animadores para quebrar o jejum de publicação neste blogue, mas vou já esclarecendo que não estou deprimida; é a surpresa e a saudade que se aproximam com um nome – Nuno.

O “meu” Nuno foi poeta, jornalista e tradutor, um erudito sem vaidade.  Por brincadeira, nós, as amigas, corríamos o dicionário à procura das palavras que nos pareciam mais estranhas para o apanharmos em terreno desconhecido. Era um tempo perdido que sabia bem: ele ou conhecia já o vocábulo ou pela análise etimológica depressa chegava ao seu sentido ou significado.

Como poucos, reconhecia a importância de uma caralhada bem dita ou, melhor, escrita. No mais clássico registo epistolar, dominando totalmente a língua portuguesa, presenteava-nos frequentemente com um chorrilho de obscenidades e insultos que nos faziam rir até às lágrimas. Aprendi por essa altura que os palavrões também podem ser formas de amor. A nossa amizade era amor.

Era um génio sem google. Era uma enciclopédia organizada por valores humanos e referências da cultura universal. Um intelectual invulgar. Uma pessoa boa, nunca boazinha. Tinha a sensibilidade sob domínio, porque a sabia indomável. Abraçava-me como mais ninguém.

A doença venceu o Nuno há mais de 11 anos, tinha ele 33. Tivesse ficado por cá e hoje era com certeza uma das figuras eminentes da literatura nacional. O seu único livro publicado, uma edição póstuma, foi premiado pela Sociedade Portuguesa de Autores e mereceu recensões de página inteira em jornais como o Expresso e o Público. Não se tornou mais conhecido porque na condição de morto não poderia ir a apresentações, fóruns ou tertúlias. E porque a poesia é uma porta incerta e discreta para a fama (que ele não procurava).

Escrevo isto hoje porque ontem estive a ler o blogue do Nuno. É o espaço online de quem tem uma imensidão de escritos para partilhar – tantos, que é mantido a atualizado com regularidade desde 2014 (a última entrada é um poema de 27 de janeiro, a propósito do que jamais deveremos esquecer, o Holocausto). Quem lê este blogue encontra a voz, a sensibilidade, a ironia e a verve do Nuno. Quem por acaso tropeçar nele, desconhecendo a sua história, pensará estar perante um autor vivo. A ilusão (será que é?) começa no próprio perfil.

O blogue foi lançado e é dinamizado pela mãe do Nuno. É ela que, dando-lhe colo, respira ontem, hoje e sempre as suas palavras.

Os pais são imortais até ao dia em que morrem. Já um filho, morrendo, anula as fronteiras do tempo.

Nuno.jpg

(poema de Nuno Rocha Morais, in "Últimos Poemas")

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