Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Avó Cool

Avó Cool

O segredo do Caminho

Foi há um ano que deixei Valença com uma carga emocional mais pesada do que a mochila. Ao longo dos 120 km que tinha pela frente, queria fazer uma profunda reflexão sobre a vida e encontrar as setas luminosas que indicar-me-iam por onde ir depois e se possível o lugar de Deus. Já não tinha trabalho, passara os dois últimos meses entre dois hospitais com familiares muito amados, estava a fechar uma casa cheia do passado dos meus mortos e acabara de saber que ia ser avó. Oscilava entre um véu denso de histórias e o nascer de um sol que chegando ao mundo pediria mais de mim, muito mais de mim, e eu já queria ser para esse bebé mais do que era então. Ia carregada de pensamentos, mas o que fez o Caminho? Mandou-os passear e tornou-me parte dele.

Era este o segredo que me reservava o Caminho: o poder de silenciar a mente babilónica e de modo imediato. Logo à primeira etapa, situou-me no “aqui e agora”, fez-me inteira no lugar e no tempo que experienciava, oferecendo-me uma espiritualidade tangível, mostrando a sacralidade do instante.

Mal me aliviei dos pensamentos, senti o peso da mochila, mas mesmo essa foi-se tornando parte do meu corpo porque o Caminho é um processo de alívio, uma atenção plena que não se pede – acontece. Um peregrino está inteiro no que vê, cheira ou pisa; todo ele é a paisagem que se transforma ao ritmo dos seus passos; é a chuva e o sol, o calor e o frio, os bosques e as veredas, as vilas e cidades, as pessoas com quem se cruza e sobretudo a cumplicidade com os outros peregrinos, gente numa mesma demanda que perde a urgência. Há um destino, um objetivo, mas antes e acima dele está a vivência do momento, a contemplação e o serendipismo, a alegria e a capacidade de superação.

Cinco dias depois, lá estava a catedral, mas o Caminho tinha sido o altar.

camino.jpg

 

Generalista, com muito prazer

Após dias a mais de ausência da blogosfera, descubro que com quatro meses acabados de fazer o Avó Cool está nomeado para os Sapos do Ano, uma iniciativa independente que manifesta a boa dinâmica da comunidade de bloggers do Sapo. Estou parva e contente. E não importa se vou ganhar, porque já ganhei.

Sou blogger, bloguista ou blogueira do Sapo com muito prazer. Tem sido uma aventura feliz pelo que dou de mim, apesar do ritmo interminente e manifestamente pouco produtivo com que publico, mas sobretudo pelo que recebo dos outros. Num tempo em que tanto se fala da espuriedade que grassa pela comunicação online, da facilidade com que qualquer pessoa faz da escrita uma arma de maledicência sem outra base que não seja a incapacidade de empatia pelo outro, encontrei no Sapo Blogs pelo menos três qualidades que me fazem sentir agradecida: a generosidade do elogio, a liberdade de expressão e a partilha. Somos sapos, sapinhos e sapudos, todos numa bela coexistência, coaxando cada ao seu modo e todos no mesmo coro.

Neste ambiente amistoso, é reeditada a eleição dos Sapos do Ano, com os próprios bloggers, pelo que entendi, a sugerirem os blogues que, a seu ver, têm mérito para serem elegíveis numa das categorias existentes. Primeiro, a quem indicou o meu, um abraço besuntado de mimo. Segundo, peço desculpa por não ter contribuído para a seleção dos finalistas, mas só agora a descobri. Terceiro, um grande bem-haja para quem lança uma iniciativa que une os da “nossa praça”; é mais um bom conceito que fico a conhecer, depois do admirável mundo de talentos que trouxe até mim o Desafio dos Pássaros (do qual desisti por motivos que nada têm a ver com a pertinência do projeto).

Agora sim, importa afirmar: sou generalista, com muito prazer! Esta Avó Cool quer escrever sobre o que lhe apetecer. Este blogue é um espaço cheio de mim e eu sou muita coisa – como todas as pessoas. A escolha do anonimato dá-me precisamente essa oportunidade caleidoscópica de comunicar o que a dado momento me faz sentido. Deixo as gavetas abertas e dou sumiço às chaves. Crio o meu espaço de opiniões, dissertações e reflexões, militâncias e errâncias, perambulando por assuntos, saltando entre mundos, cristalizando momentos.

Ao criar este blogue, eu venci alguns obstáculos. Ao entrar nesta comunidade, eu fiz um lugar na dita praça. E gosto da vizinhança. Em suma, seria um disparate ser uma das premiadas dos Sapos do Ano, há entre os nomeados talentos bem maiores, muito mais dedicados e mais esforçados (sendo que o esforço é um dos maiores méritos que pode reconhecer-se a alguém), mas podem entender que eu, pelo que aqui exponho, já ganhei mais do que suporia ganhar.

Desafio de escrita dos pássaros #5

Ó meus amigos, ninguém merece estar tanto tempo numa fila à espera de saber se vai para a penthouse ou desce à fossa, que isto do… que foi, estou a ser desrespeitoso? Então porquê? Espere lá você, que morto por cem morto por mil e a mim já ninguém cala! Como estava eu a dizer, já vimos que isto do purgatório é para nos borrarmos de medo e até entendo, todos os que cá estão fizeram algumas sacanices lá no rés-do-chão, mas nada que se compare à obra deste sacana, sim, tu, e tira-me esse sorriso das fuças se não queres reincarnar como bactéria de frúnculo do cu, seu monte de merda, espirro de punh… desculpe, porteiro celestial, mas aqui o Adolfinho está morto há 74 anos e ainda não aprendeu nada. Eu falo com bons modos, deixe-me acabar, vá lá. Então estamos num impasse, ninguém quer este traste, o que é preocupante porque enquanto o desalmado não entrar por uma dessas duas portas estamos a morrer de tédio, passe a expressão que finados já somos, numa fila cada vez maior porque a Terra não é um lugar de anjinhos e… está bem, vou direto ao assunto. Tenho uma proposta para levarem às altas instâncias do paraíso e do inferno: rapar o bigode ao gajo. Olhem, olhem, estão a ver como ele tirou logo o sorrisinho da fronha? Seu cabrão, o teu azar é eu ser português; sei muito bem o que um bigode faz ou não faz por um homem e a ti já tirei a pinta e o pelo, sem essa merda vais parecer um desgraçado sugado pelas Finanças ou um coninh… está bem, eu paro com o asneiredo, é que olho para ele e, ‘da-se, passo-me, enfim, mas é o que vos digo, sem o bigode ele perde a identidade e a aura, perde tudo e fica perdido para sempre. Cretinos como este implodem por coisas pequenas e a dele, a de cima porque a debaixo nunca vi, se bem que os punha no cepo em como é uma cedilhita entre as pernas, ao desaparecer vai criar uma combustão que é qualquer coisa. Alguém tem uma navalha? Não? Morte, empresta aí a foice!

 

[“Estás na fila para o purgatório e Hitler está à tua frente. Ninguém o quer aceitar e a fila não anda. Escreve a tua intervenção para convencer um dos lados a aceitá-lo” - foi este o tema (a que não fui totalmente fiel) dado esta semana aos bloggers participantes no Desafio de Escrita dos Pássaros. Adorei esta iniciativa; permitiu-me experimentar diferentes registos de escrita ao longo de cinco semanas e sobretudo descobrir o talento e a criatividade de tantos participantes, mas vou desistir… O Desafio dos Pássaros continua até ao final do ano, eu fico por aqui. Não há críticas negativas a tecer à dinâmica criada na comunidade; o problema está em mim que não consigo ainda ter uma cadência de publicações que me permita diversificar a natureza dos meus posts. Ou seja, neste momento o meu blog está transformado num desafio de escrita e não é esse o seu propósito. Agora, se vou acompanhar os voos do bando? Vou!]

Hoje, no lugar do outro

“Saúde mental é SENTIR”. A frase está na contracapa de um pequeno bloco que esta manhã me foi entregue, juntamente com um laço verde, para assinalar o Dia Mundial da Saúde Mental. Neste SENTIR está um apelo: coloca-te no lugar de quem sofre, percebe como bate esse outro coração.

laco_verde.jpg

O laço e o bloco foram-me entregues por uma doente mental num hospital psiquiátrico. Calhou ser hoje mais uma consulta de um familiar muito próximo para quem eu me tornei num pilar. É há uns dez anos um caminho difícil que me faz experimentar estados de revolta, impotência, desespero, aceitação, tristeza, compaixão. Agora sai de ti, Maria – o que têm esses dez anos no coração e na mente de quem acompanhas? Tristeza e medo, medo e tristeza. É ou não bem pior?

Há da parte do cidadão saudável, socialmente integrado, enquadrado nos padrões regulares de vivência emocional, intelectual e funcional, essa ideia de que o doente mental sente o que se passa nele e à sua volta de um modo tão distinto que, provavelmente, sofrerá menos ou precisa de menos. É mentira.

Às vezes acordamos a meio da noite e somos assaltados por pensamentos que se tornam obsessivos, desmesuradamente assustadores. Ficamos ali algum tempo sem ver a luz ao fundo do túnel, esmagados por um pensamento-problema que à luz da manhã, afinal, perde o peso, a urgência e o drama. Um doente mental fica muitas vezes nessa noite. O laço é verde, “a cor da esperança”, disse a senhora que mo ofereceu. É a esperança na recuperação, total ou a possível, destes doentes, mas é também a esperança numa sociedade capaz de os SENTIR.

Desafio de escrita dos pássaros #4

Beatriz dizia sempre que sim,

Faz favor, perdão e obrigada.

Justificava-se por tudo e por nada.

- Desculpa respirar, não quero incomodar.

 

O amor é um pássaro com miopia, nunca a via.

E Beatriz desistia.

Entre discussões e palavrões, ficava por dizer o não.

Sumia-se a voz, um fio de opinião.

 

Um dia, já farrapo de mulher, duvidou:

- Que ave é esta, afinal, que come o coração e a razão?

Aconteceu então,

a Beatriz disse que não. E agora?

Agora há um pássaro desasado a pensar em quem perdeu.

Beatriz não vai voltar. Se o amor não era aquilo, agora é ela a voar.

 

[texto realizado no âmbito do desafio de escrita criativa lançado pelo blogue Os Pássaros. Tema da semana: "A Beatriz disse que não. E agora?"]

Zé do Mundo, que beleza

Não chega a minuto e meio de vídeo, mas a lição está lá inteira: nunca é tarde. José Neves, conhecido na sua aldeia em Bragança por Zé do Mundo, tem 93 anos e há coisa de um mês começou a aprender a ler e escrever, conta-nos o Jornal de Notícias.

Algo me diz que Zé do Mundo, que beleza de alcunha, tem uma sabedoria da Natureza que eu não alcanço. Não o vejo a surpreender-se com os estados de alma dos céus ou das montanhas, não o imagino espantado com a forma como correm os rios e os animais, quase lhe percebo a íntima ligação ao essencial.

Sei que tem um neto chamado Rui, três letras apenas de todas as que está a aprender: R-U-I, pode agora confirmar o sr. Zé, é uma sílaba de amor.

Sem ter um só dia de escola na sua longa existência, este nonagenário ensina que a vida só acaba mesmo no último sopro; até ao ponto final é uma narrativa em aberto.

Gostava de dizer a este avô Zé como esta semana me foi preciosa a sua lição. Nunca é tarde, Maria! E agi: ao fim de sucessivas desculpas para escapar a um novo desafio, ontem à noite juntei-me a um grupo coral e performativo. Não adiei mais. Cheguei e comecei a cantar. Não canto nada de jeito, na melhor das hipóteses tenho uma voz sofrível, mas posso melhorar. Melhor ainda, tenho vozes que cantam comigo.