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Avó Cool

Avó Cool

Desafio de escrita dos pássaros #4

Beatriz dizia sempre que sim,

Faz favor, perdão e obrigada.

Justificava-se por tudo e por nada.

- Desculpa respirar, não quero incomodar.

 

O amor é um pássaro com miopia, nunca a via.

E Beatriz desistia.

Entre discussões e palavrões, ficava por dizer o não.

Sumia-se a voz, um fio de opinião.

 

Um dia, já farrapo de mulher, duvidou:

- Que ave é esta, afinal, que come o coração e a razão?

Aconteceu então,

a Beatriz disse que não. E agora?

Agora há um pássaro desasado a pensar em quem perdeu.

Beatriz não vai voltar. Se o amor não era aquilo, agora é ela a voar.

 

Zé do Mundo, que beleza

Não chega a minuto e meio de vídeo, mas a lição está lá inteira: nunca é tarde. José Neves, conhecido na sua aldeia em Bragança por Zé do Mundo, tem 93 anos e há coisa de um mês começou a aprender a ler e escrever, conta-nos o Jornal de Notícias.

Algo me diz que Zé do Mundo, que beleza de alcunha, tem uma sabedoria da Natureza que eu não alcanço. Não o vejo a surpreender-se com os estados de alma dos céus ou das montanhas, não o imagino espantado com a forma como correm os rios e os animais, quase lhe percebo a íntima ligação ao essencial.

Sei que tem um neto chamado Rui, três letras apenas de todas as que está a aprender: R-U-I, pode agora confirmar o sr. Zé, é uma sílaba de amor.

Sem ter um só dia de escola na sua longa existência, este nonagenário ensina que a vida só acaba mesmo no último sopro; até ao ponto final é uma narrativa em aberto.

Gostava de dizer a este avô Zé como esta semana me foi preciosa a sua lição. Nunca é tarde, Maria! E agi: ao fim de sucessivas desculpas para escapar a um novo desafio, ontem à noite juntei-me a um grupo coral e performativo. Não adiei mais. Cheguei e comecei a cantar. Não canto nada de jeito, na melhor das hipóteses tenho uma voz sofrível, mas posso melhorar. Melhor ainda, tenho vozes que cantam comigo.